ETNIA E JULGAMENTO LITERÁRIO: O CASO B. LOPES

 

Paulo Franchetti – Unicamp

                               

 

B. Lopes morreu de tuberculose e excesso de álcool em 1916. Seu primeiro livro de versos, Cromos (1881), teve grande sucesso em todo o país e a forma e estilo dos poemas desse livro foram imitados de norte a sul; de tal forma que, nos anos 90, vários jornais e revistas traziam uma seção de “cromos” à maneira de B. Lopes: um sonetilho em redondilha maior, de tom prosaico, em que se apresenta objetivamente uma cena rural.[1]

Depois dos Cromos, publicou mais sete títulos, que também tiveram, no seu tempo – uns mais, outros menos – sucesso de público e reconhecimento crítico. Não deixou, porém, obra extensa e todos os seus versos cabem em quatro volumes pequenos e de poucas páginas cada um.[2]

Sua fortuna crítica também não é muito grande. Além dos rodapés que lhe dedicaram por ocasião do lançamento dos livros, e de seções em trabalhos de caráter panorâmico, sobre ele se encontram hoje apenas três estudos razoavelmente extensos, sendo dois deles de caráter biográfico.[3]

O exame dessa diminuta fortuna crítica tem, entretanto, grande interesse, porque revela duas coisas: a sobreposição de juízos literários e étnicos que tiveram, em algum momento da cultura brasileira, um grande poder de persuasão; e o progressivo apagamento de todas as linhas poéticas que não correspondessem aos temas e questões que passaram a dominar o campo intelectual brasileiro a partir do Modernismo.

Em 1899, um intelectual de renome como João Ribeiro podia ainda escrever, na Revista Brasileira, que apenas três poetas podiam ombrear-se com B. Lopes: Raimundo Correia, Alberto de Oliveira e Olavo Bilac. Mas é verdade que desde há algum tempo não era essa a opinião mais generalizada. Araripe Júnior, por exemplo, no “Movimento literário do ano de 1893", fizera uma apreciação condescendente e até simpática dos versos de B. Lopes, mas lhe reconhecia apenas um “lugar modesto” na produção literária da época.

E logo depois de Araripe, José Veríssimo já tinha tido uma avaliação muito negativa da obra de Lopes, em “Alguns livros de 1895 a 1898”. Segundo Veríssimo, tratava-se de um “poeta espontâneo, mas de curta inspiração, talento médio, mas natural, impressionista e sincero”. Escrevendo sobre um poeta ainda vivo, censura-lhe o descaminho simbolista, e ataca especificamente o volume Brazões, que considera “todo artificial”. Seus maiores defeitos seriam três. Em primeiro lugar, a forma “mais gongórica que distinta” e que o historiador crê imitada da maneira de Guerra Junqueiro. Em segundo lugar, “as liberdades que toma o poeta com a língua". Para Veríssimo, são "fora de toda a regra”, pois B. Lopes não hesitaria em criar palavras ao seu bel-prazer, sem “sujeitar-se às leis de formação dos vocábulos”. Por fim, o defeito mais grave: a sua temática, que o crítico considerava "afetadamente rebuscada numa preocupação como quer que seja ridícula, de alta vida", em ‘palácios heráldicos’ imitados de um poeta português, o Conde de Monsaraz.

O resultado, segundo Veríssimo, teria sido “um esnobismo artístico que absolutamente não é recomendável”, ainda mais porque, diferentemente do Conde, que era fidalgo e vivia entre fidalgos, esse tom era em B. Lopes apenas "uma postura pretensiosa", contrária ao “seu verdadeiro gênio, que é um lirismo simples, natural, espontâneo mas pobre”.[4]

Alguns anos depois, em 1904, Sílvio Romero, como seria de esperar, também nesse ponto teria opinião bem diferente da exposta por Veríssimo e, retomando o julgamento de João Ribeiro, reafirma que B. Lopes é um poeta de primeira magnitude, no mesmo nível de Bilac, Correia e Oliveira e Cruz e Sousa.[5]

Mas, em que pese a apreciação de Romero (a que, vinte anos depois, se juntará a voz isolada de Agripino Grieco[6]), são as palavras de Veríssimo que vão fornecer os traços básicos do retrato futuro de B. Lopes, articulados sobre a oposição entre o lirismo simples, que lhe seria congenial, e o rebuscamento ‘pretensioso’.

A partir de um episódio que ficou bem conhecido – o livro de homenagem ao Marechal Hermes da Fonseca, em que B. Lopes compareceu com dois sonetos que foram lidos apenas como demonstração de miséria mental –, e com a divulgação geral do famoso retrato do poeta feito por Gonzaga Duque, uma nova nota se acrescenta à explicação da sua singularidade: a mulatice.

A ‘mulatice’ vem instalar-se sobre a oposição, já traçada por Veríssimo, entre a natureza real do poeta e a sua maneira artificial. E o conjunto devia ser mesmo persuasivo, pois Andrade Muricy, o crítico a quem devemos a única edição da sua poesia completa, além de desenvolver, para explicar o ‘caso’ B. Lopes, uma estapafúrdia teoria psicológica do mulato, assim acabou por escrever, em 1945:

 

B. Lopes ia, entretanto, afastando-se do seu ambiente natal e até da família. Ia sendo prenunciado o seu definitivo feitio, ia se afirmando aquele tom que tem parecido irremediavelmente fictício, e mesmo falso, o daquela ‘Comédia elegante’ já presente nos Pizzicatos, de 1886. Nesse livro vemo-lo encaminhar-se para um mundo imaginativo e de mundanidade, o que a todos surpreendeu, tratando-se de um humilde filho de arraial, empregadinho público insignificante, e mestiço .[7]

 

O que surpreende aqui é a crueza da frase final. Mas ela é a conseqüência lógica da oposição traçada, desde Veríssimo, entre o realismo do Conde de Monsaraz e o artificialismo e esnobismo do poeta brasileiro.

Entre 1945 e o ano do centenário de nascimento do poeta, 1959, foi sempre essa a tônica das aproximações à obra ou à vida do poeta. Mello Nóbrega, biógrafo de B. Lopes nos anos 50, por exemplo, atribuiu o fracasso dos Brasões ao fato de que o “trânsfuga da linha da cor”, não podendo vencer o preconceito, acabou por refugiar-se no irrealismo da poesia -- da “poesia branca, entenda-se”, como logo faz questão de explicar.

No texto de Muricy e também no de Mello Nóbrega, pode-se ver de corpo inteiro o singular argumento classista e racista com que se desqualificou, de modo muito fácil, a produção poética de B. Lopes, e que se monta assim: a partir da exigência romântica de veracidade (que, por sua vez, radica em última análise numa concepção de poesia como expressão de vivências reais), condena-se como falsa a maior parte da sua obra, aquela em que o seu cenário não são os casebres e as roças que ele conheceu, habitadas por gente pobre e ‘de cor’, mas sim casas nobres, habitadas por damas brancas e ricas, que praticam equitação e se deliciam com bebidas e comidas finas. Seguindo essa linha de raciocínio, essa última faceta é toda falsa, e, por conseqüência, esteticamente gorada, sem necessidade de consideração objetiva dos poemas.

Essa foi também a tônica da crítica de circunstância, produzida por ocasião do centenário do poeta, e que redundou num geral barateamento de todas as questões. Foi contra esse barateamento que o próprio Muricy, exibindo posição muito diferente da que assumira em 45, saiu em combate, quando da publicação da antologia da coleção ‘Nossos clássicos’, em 1962. Mas já nessa época era impossível reverter a inércia da crítica e da historiografia, cada vez mais descuidada, a partir do fortalecimento do cânone modernista, de verificar as verdades herdadas sobre os poetas que antecederam, por umas poucas décadas, a Semana de 1922.

E o desenvolvimento natural é que B. Lopes, nos anos 70 já se reduzisse, como matéria julgada, ao poeta que traiu a natureza pessoal do seu lirismo e se perdeu na ridicularia ou no esnobismo:

 

Assim, há muito de pessoal nos Cromos (1881), de B. Lopes que, antes de se perder no esteticismo esnobe dos Brasões e de Val de Lírios, desenvolveu uma linha rara entre nós: a poesia das coisas domésticas, os ritmos do cotidiano.[8]

 

Nos anos seguintes, o seu lugar será progressivamente reduzido na cultura brasileira, até ficar restrito, na última síntese histórica elaborada com os critérios e crenças dos anos 50/60, exclusivamente às notas de rodapé e às relações de iniciadores do Simbolismo no Brasil.[9]

A única exceção nesse quadro, porque foge às linhas de apreciação traçadas por Veríssimo, é José Guilherme Merquior, que, em 1977, mesmo pagando o pedágio obrigatório da consideração biográfica da ‘mulatice’ de B. Lopes, pela primeira vez apontou – muito acertadamente, do meu ponto de vista – a filiação estética do poeta, aproximando-o de Huysmans e de Cesário Verde.[10]

Depois de Merquior, B. Lopes praticamente não voltou a receber atenção. Na verdade, esse livro, De Anchieta a Euclides – breve história da literatura brasileira, que é tão inteligente e erudito, quanto mal conhecido ou silenciado, não parece (por isso mesmo) ter operado qualquer mudança na imagem crítica de B. Lopes. O que é o mesmo que dizer que o poeta continua sem existência real no cânone historiográfico da literatura brasileira.

Isso é bastante compreensível, porque, em linhas gerais, os paradigmas até agora dominantes na historiografia literária – e que são, em grande medida, modalizações de uma descrição essencialmente romântica, baseada em metáforas organicistas – caminham sempre com um pé na narrativa da construção sócio-política da nação e outro no desenho da linha teleológica que deságua no Modernismo de 1922. Nesses enredos, figuras como B. Lopes têm ainda menos lugar do que outros vultos hoje bastante apagados, como por exemplo Raimundo Correia ou Alberto de Oliveira. Estes, como B. Lopes, não favorecem as leituras que subordinam o interesse literário à avaliação do ‘empenho’ social, nem estimulam as leituras que por toda a parte buscam os anúncios ou prefigurações da redenção de 22. Mas B. Lopes tem, comparado com eles, um defeito a mais: era um outsider, mas nem foi um homem em revolta aberta contra a discriminação de raça e de classe que, de fato, parece ter sofrido; nem buscou superar a sua condição por meio de um academicismo respeitável, empenhando-se na construção de uma obra consistente de acordo com as “escolas” do seu tempo. Foi um rebelde, apenas, um boêmio, e por isso foi descrito como um mulato que nunca superou a mulatice, como um macaqueador do dandismo europeu, um oprimido que se contentou em mimetizar o opressor por meio de delírios mais ou menos compensatórios. Perdeu-se no ‘esteticismo’, como resumem as pessoas para as quais essa palavra é sempre negativa, porque designar, do seu ponto de vista, o contrário das atitudes desejáveis numa literatura e numa nação em contínua construção: a participação política e da solidariedade social.

Nos últimos anos, porém, alguma mudança se tem operado no paradigma histórico e crítico da literatura brasileira. Isso é muito sensível justamente no que diz respeito ao período antes denominado – no quadro da bitola nacional-teleológica – “Pré-Modernismo”. Em decorrência, creio que já é bastante sensível que, de agora em diante, será preciso olhar de modo menos defendido para as várias formas de poesia anteriores ao Modernismo ou contemporâneas a ele: Parnasianismo, Simbolismo e todo o vasto leque de tendências até agora batizadas, vaga ou pejorativamente, de penumbrismo, epigonismo ou sincretismo. Com isso, da mesma forma que já se republica uma série de livros notáveis e há tantos anos esquecidos, talvez em breve se faça uma nova edição de toda a poesia de B. Lopes.

Lidos os seus versos por uma geração nova, sem os filtros das anedotas de sabor racista, sem os travos de um biografismo ingênuo ou mal intencionado e, sobretudo, sem um discurso que avalie o passado apenas em função do que se atualizou ou não atualizou no Modernismo de 22, quem sabe não será finalmente possível reconhecer o poeta e, no mesmo gesto, enterrar de vez a máscara de mulato metido a besta que a reação da época lhe colou ao rosto, que José Veríssimo cimentou com o seu juízo estreito e que, pelos vários motivos que fui relacionando, nunca a melhor crítica ou a melhor historiografia de meados deste século achou que valia a pena retirar.



[1] Um exemplo apenas: ao longo dos volumes de O Pão da Padaria espiritual, publicado no Ceará em1892 e em 1895-96 (onze anos depois da publicação do livro de B. Lopes, portanto), encontra-se regularmente uma coluna de “Chromos”, no espírito, na forma e no estilo imitados do poeta fluminense. A série vai do início da revista até a morte do poeta que a assinava, Lívio Barreto, ocorrida em outubro de 1895.

[2] Muricy, Andrade (org.). Poesias completas de B. Lopes. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1945, 4 vol.

[3] São eles: o estudo introdutório de Andrade Muricy, que veio na edição da Editora Zelio Valverde, acima referida, e os volumes seguintes: Lacerda, Renato de. Um poeta singular, B. Lopes. Rio de Janeiro: s/e, 1949; e Nóbrega, Mello. Evocação de B. Lopes. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959.

[4] Veríssimo, José. Estudos de Literatura Brasileira – 1ª série, 1895-1898. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1901, p. 281-292.

[5] Romero, Sílvio: “Confronto em retrospecto (1904)”. In: História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1949 (4ª ed.), tomo V, p. 269.

[6] Agripino Grieco. Evolução da poesia brasileira. (3ª ed., revista). Rio de Janeiro: José Olympio, 1947, p. 61.

[7] Andrade Muricy. “Prefácio” às Poesias completas de B. Lopes, cit., p. 15. Sobre a "mulatice", p. 17: “É preciso entretanto, não esquecer que era um mestiço, e, como tal, de sensibilidade inquieta. Os creoulos [...] de todo o mundo [...] são naturalmente faustosos, exibicionistas ingênuos, e de um requinte especial, mas efetivo. O caso de B. Lopes assinalou, no Brasil, idêntico fenômeno.”

[8] Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Editora Cultrix, 1975 (2ª ed.), p. 257.

[9] José Aderaldo Castello. A literatura brasileira – origens e unidade. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999.

[10] José Guilherme Merquior. De Anchieta a Euclides – breve história da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1977, p, 136-7.